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Safra 2026/2027: a eficiência como chave para períodos de incerteza

Consultor do Pecege explica, com dados, por que a produtividade não caiu tanto quanto parece, onde o produtor gasta mais e por que a eficiência, não o volume, é o que define resultado na nova safra

A safra 2026/2027 começa com um cenário que pede atenção. Quem acompanhou a palestra do consultor João Rosa (Botão), da Pecege Consultoria e Projetos, no dia 31 de março, saiu com uma visão mais clara de onde estamos e para onde vamos. O objetivo da Socicana, ao convidar o especialista, foi contribuir para a tomada de decisão nas lavouras, principalmente em um período de tantas incertezas.

Botão é especialista em custos de produção do setor sucroenergético e acompanha mais de 100 usinas por safra. Na apresentação, ele abordou os três temas que mais afetam o resultado do produtor de cana: a produtividade da safra que está se encerrando, os preços esperados para o próximo ciclo e os custos de produção. Em todo momento, ele voltou às perguntas centrais que orientaram a apresentação: para onde vai o dinheiro e onde é possível melhorar.

A produtividade caiu ou voltou à média histórica?

Uma das primeiras preocupações que o consultor esclareceu foi exatamente a impressão de que a cana produziu muito menos nesta safra. A safra 2025/2026 deve ser encerrada com produtividade de 75,5 toneladas por hectare (t/ha) no Centro-Sul. O consultor mostrou que esse número está dentro da média histórica da região, que é de 77,4 t/ha. Ressalta-se que a safra 2023/2024 é que foi atípica, com 86,77 t/ha de produtividade, algo muito acima do padrão.

A queda de produtividade também não foi igual em todo o Centro-Sul. Regiões como Ribeirão Preto e Araraquara sentiram mais, com recuo próximo de 14%. Já Mato Grosso do Sul e Presidente Prudente melhoraram em relação à safra anterior. A principal causa foi o clima desfavorável em março de 2025, período decisivo para o desenvolvimento da cana, o que prejudicou os canaviais de forma desigual.

O que esperar da safra 2026/2027

Para o ciclo que começa agora, a expectativa do Pecege é de recuperação. Com clima mais regular e canavial ligeiramente mais jovem, a produtividade deve subir para 76,6 t/ha. A moagem total estimada para o Centro-Sul é de 629,9 milhões de toneladas, o que representa alta de 3,4%.

No que diz respeito ao mix da cana, a tendência é para o etanol, devido à pressão sobre o açúcar no mercado internacional por excesso de oferta. Enquanto isso, o etanol ganha força no mercado interno com a vigência da mistura E30 na gasolina desde agosto de 2025 (30% de etanol misturado à gasolina nos postos).

Na questão do preço recebido pelo produtor, a perspectiva é de queda em relação à safra 2025/2026, refletindo os menores preços do açúcar no exterior. Porém, há um fator que pode mudar esse quadro: as questões geopolíticas, como conflitos no exterior, podem tornar o etanol mais competitivo e melhorar o preço do ATR (Açúcar Total Recuperável). Essa variável, proém, precisa ser acompanhada ao longo dos próximos meses.

Onde é possível melhorar?

A análise dos custos foi um momento fundamental da palestra. O custo médio da safra 2025/2026 ficou em R$ 175,50 por tonelada de cana, e a projeção do Pecege para 2026/2027 apontava para uma redução, com alívio esperado em fertilizantes e defensivos. Esse cenário, porém, mudou rapidamente. O agravamento dos conflitos no Oriente Médio, a partir de março de 2026, provocaram a alta de insumos essenciais para a cana-de-açúcar, e o produtor precisa rever suas planilhas.

Botão mostrou como esse custo se divide: 52% vão para operação (diesel, máquinas e mão de obra), 25% para insumos agrícolas, 17% para arrendamento e 6% para outros itens. O ponto central, entretanto, é não  olhar para o custo por hectare, pois não é essa a medida que importa para comparar desempenho. A métrica correta é o custo por quilo de ATR. Gastar mais por hectare não significa, necessariamente, ser menos eficiente. Se a cana colhida for mais produtiva e de melhor qualidade, o custo por quilo de ATR pode ser, no final das contas, mais competitivo.

Os produtores mais eficientes da amostra do Pecege, que reúne mais de 100 usinas, têm produtividade de 85 t/ha, canavial com cerca de 6 cortes de vida útil e chegam a um custo total de R$ 1,00 por quilo de ATR. Quem opera nesse patamar estaria protegido mesmo em cenários de preço mais baixo. Porém, quem está acima de R$ 1,20/kg precisa identificar em qual parte da operação está perdendo margem.

Três perguntas para o produtor refletir

Com base no que o palestrante apresentou, três perguntas são estratégicas antes para tomar qualquer decisão de investimento ou de corte de custos nesta safra:

1) Qual é o seu custo por quilo de ATR? Esse é o primeiro passo.

2) Quantas toneladas de cana por hectare precisa produzir para pagar todas as suas contas? Botão chama isso de relação de troca.

3) O seu canavial está com a idade certa? Canavial mais velho produz menos. A decisão hoje de renovar vai refletir no resultado por 6 ou 7 anos.

Organize as informações e também busque orientações com a Equipe Técnica da Socicana. Apesar das incertezas de mercado, a diferença entre o ganho e um resultado ruim começa na gestão financeira e tomada de decisão.

As informações foram baseadas na palestra “Abertura de Safra 2026/2027 – previsões e custos”, ministrada pelo consultor João Rosa (Botão), da Pecege Consultoria e Projetos, no dia 31 de março de 2026.

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