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Impacto das chuvas nos níveis de infestação da Cigarrinha, o monitoramento constante é a chave do sucesso.

A cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) é uma das principais pragas da cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil. Sua importância aumentou com a expansão da colheita mecanizada sem queima, que mantém a palhada sobre o solo e favorece condições de umidade adequadas ao desenvolvimento das ninfas. O ataque pode reduzir a produtividade agrícola e comprometer a qualidade tecnológica da matéria-prima. Por isso, o manejo deve combinar conhecimento biológico, monitoramento sistemático e medidas de controle integradas.

O ciclo de vida da M. fimbriolata compreende três fases principais: ovo, ninfa e adulto. Os ovos são depositados no solo, associados à base das touceiras e a resíduos vegetais. Parte deles pode entrar em diapausa, permanecendo viável durante períodos desfavoráveis, especialmente na estação seca, e eclodindo quando as condições de temperatura e umidade se tornam adequadas.

As ninfas desenvolvem-se na região das raízes superficiais e da base dos colmos. Produzem uma espuma característica, formada por secreções e bolhas de ar, que reduz a dessecação e oferece proteção física. Durante essa fase, alimentam-se da seiva do xilema, comprometendo o vigor das plantas. Após sucessivas mudas, emergem os adultos, que permanecem na parte aérea e se alimentam principalmente das folhas.

Em condições favoráveis, o ciclo completo pode durar aproximadamente 60 a 80 dias, embora a duração varie com a temperatura, a umidade e as condições de desenvolvimento. No Sudeste, as infestações tendem a aumentar durante o período chuvoso, quando a umidade do solo favorece a eclosão dos ovos e o desenvolvimento das ninfas. A ocorrência de gerações sucessivas pode manter a população elevada durante parte da safra.

O principal dano é provocado pelas ninfas, cuja alimentação nas raízes prejudica a absorção e o transporte de água e nutrientes. Os sintomas incluem amarelecimento foliar, redução do crescimento, perda de vigor, encurtamento dos entrenós e morte de perfilhos em infestações severas. Os adultos também causam danos ao se alimentarem da parte aérea, podendo provocar estrias cloróticas e áreas de aspecto queimado.

Além da redução da produtividade de colmos, a infestação pode diminuir o teor de sacarose e prejudicar a qualidade industrial da cana. A magnitude das perdas depende da intensidade e duração do ataque, da variedade, do estágio de desenvolvimento da cultura e das condições ambientais. Portanto, percentuais de perdas divulgados em materiais técnicos devem ser interpretados como valores observados em determinadas condições, e não como resultados esperados para todos os canaviais.

O monitoramento é fundamental para identificar o crescimento populacional antes que os danos se tornem expressivos. As avaliações devem começar no início do período chuvoso e continuar durante a época de maior risco, com frequência ajustada ao histórico da área e à evolução das infestações.

O procedimento consiste em selecionar pontos representativos de cada talhão e examinar a base das touceiras, a palhada e a camada superficial do solo. A contagem deve registrar o número de ninfas por metro, tomando como referência as espumas deixadas por elas, e, quando previsto no protocolo adotado, a presença de adultos.

O nível de controle deve ser definido conforme o protocolo técnico utilizado, a época de colheita, o desenvolvimento da cultura e o histórico de infestação (Dinardo-Miranda, 2008). A SOCICANA utiliza como referência média cinco ninfas por metro e de 0,5 a 0,75 adulto por cana (Mendonça 1996); outros materiais técnicos apresentam limites diferentes. Esses números não devem ser tratados como um limiar universal. A decisão de intervenção deve considerar a avaliação local e a orientação de um profissional habilitado.

Controle biológico: fungos entomopatogênicos, especialmente Metarhizium anisopliae, são alternativas importantes para o manejo das ninfas. A eficiência depende da cepa, da formulação, da qualidade de aplicação e das condições ambientais. Outros agentes biológicos, como Cordyceps fumosorosea, também vêm sendo utilizados. A escolha deve considerar a fase predominante da praga e as recomendações técnicas do produto.

Controle químico: inseticidas registrados para a cultura e para a praga podem ser utilizados quando o monitoramento indicar necessidade de intervenção. A escolha deve observar a eficiência sobre a população presente, o momento da aplicação, a tecnologia de pulverização e a preservação de organismos benéficos. A alternância de mecanismos de ação, conforme as recomendações oficiais, contribui para reduzir a pressão de seleção por resistência. Doses, misturas e intervalos devem seguir o registro e a bula vigentes.

Manejo cultural: a manutenção de avaliações periódicas, o conhecimento do histórico dos talhões, a escolha de variedades adaptadas e o planejamento das operações agrícolas contribuem para reduzir os riscos e melhorar a tomada de decisão. A presença de palhada deve ser considerada no planejamento do manejo, sem pressupor que sua remoção seja necessária ou vantajosa em todas as situações, pois ela também contribui para a conservação do solo e da água.

O manejo eficiente de M. fimbriolata (Cigarrinha-das-raízes) depende da integração entre biologia da praga, monitoramento populacional e escolha criteriosa das medidas de controle. A identificação precoce das ninfas, a avaliação do nível de infestação e o uso racional de estratégias biológicas e químicas permitem reduzir os danos e preservar a produtividade e a qualidade da cana-de-açúcar. A adoção de decisões baseadas em evidências e adaptadas a cada talhão é essencial para um manejo economicamente eficiente e ambientalmente responsável.

Referências para consulta

GARCIA, J. F.; BOTELHO, P. S. M.; PARRA, J. R. P. Biologia e tabela de vida de fertilidade de Mahanarva fimbriolata (Stål) (Hemiptera: Cercopidae) em cana-de-açúcar. Scientia Agricola, 2006. https://doi.org/10.1590/S0103-90162006000400001

DINARDO-MIRANDA, L. L.; BAYER, J. P.; FRACASSO, J. V. Nível de dano econômico em cana-de-açúcar causado pela cigarrinha das raízes Mahanarva fimbriolata (Stål) (Hemiptera: Cercopidae). Scientia Agricola, 2008. https://doi.org/10.1590/S0103-90162008000100003.

MENDONÇA, A. F. (Ed.). Pragas da cana-de-açúcar. Maceió: Insetos & Cia, 1996. 239 p.

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