
Bate-Papo Técnico destacou a importância do planejamento da adubação, da correção do solo e da análise do retorno sobre o investimento nas decisões de manejo
Produtores e profissionais do setor sucroenergético participaram, no dia 15 de setembro, do bate-papo técnico “Nutrição da cana-de-açúcar: desafios técnicos, operacionais e econômicos”. O encontro teve como palestrante o Prof. Dr. Pedro Henrique de Cerqueira Luz, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA/USP), que abordou estratégias para aumentar a eficiência do manejo nutricional diante de um cenário de custos elevados e margens mais ajustadas.
Na abertura do encontro, Renato Fernandes Machado, gerente Técnico da Socicana, apresentou um panorama do mercado sucroenergético e das perspectivas para a safra 2026/27. Entre os fundamentos analisados, destacou um cenário de câmbio mais estável, com pressão de baixa, e de valorização do petróleo, influenciada pelas tensões no Oriente Médio e pelos riscos ao fluxo da commodity. No mercado de etanol, mesmo com a alta do petróleo, Renato apontou fatores que limitam uma reação mais expressiva dos preços, como a oferta de etanol de milho e a defasagem dos combustíveis no mercado interno em relação ao cenário internacional. Para o açúcar, a perspectiva apresentada foi de valorização, diante dos impactos climáticos sobre a produção brasileira e das restrições hídricas na Ásia. Considerando esses fatores, as projeções de consultorias do setor até aquela data, indicaram o preço do ATR entre R$ 0,915 e R$ 0,9637/kg para o fechamento da safra 2026/27, enquanto as estimativas para a moagem do Centro-Sul variaram entre 620 milhões e 643 milhões de toneladas.

Perspectivas para a safra 2026/27: projeções apresentadas pela Socicana indicam diferentes cenários para o preço de fechamento do ATR em São Paulo.
Na sequência, o Prof. Pedro Luz direcionou a discussão para a eficiência do manejo nutricional e a necessidade de considerar as particularidades de cada sistema produtivo. “Nem sempre o contexto de buscar a máxima produtividade significa necessariamente que eu vou ter o máximo retorno financeiro”, destacou. Segundo o professor, é necessário encontrar o equilíbrio entre a dose utilizada, a resposta da cultura e a rentabilidade obtida. “Temos que colocar também esses aspectos do retorno financeiro, não só o retorno técnico, mas o técnico-financeiro.”
Cenário exige maior atenção aos custos
Durante a apresentação, o pesquisador mostrou a evolução recente dos preços de fertilizantes e chamou a atenção para a piora nas relações de troca. Na prática, esse cenário representa maior pressão dos custos de adubação sobre a produção e exige mais atenção na definição das estratégias de manejo.
O Prof. Luz ressaltou a necessidade de estabelecer prioridades no manejo. “Calculamos o retorno do investimento para várias práticas agrícolas para que os produtores possam ir observando aquelas práticas que têm o melhor ROI (Retorno sobre Investimento) e aquelas que têm menos, para fazer os ajustes internos dentro do sistema produtivo deles”, explicou.
Correção do solo permanece estratégica
Entre os pontos abordados esteve a importância da construção e manutenção da fertilidade do solo. A estratégia apresentada envolve práticas corretivas, como calagem, gessagem e fosfatagem, associadas à adubação mineral, adubação orgânica, adubação verde, micronutrientes e outras ferramentas de manejo.

Manejo integrado: estratégia nutricional reúne práticas corretivas e diferentes formas de adubação para a construção da produtividade da cana-de-açúcar.
Resultados apresentados durante a palestra mostraram a resposta da cana à calagem em diferentes condições. Em uma análise econômica de áreas experimentais, o ROI médio da calagem foi de 4,4 vezes o valor investido. O comportamento, porém, variou conforme as características do solo: nas áreas de textura média ou arenosa avaliadas, o ROI médio chegou a 6,7 vezes, enquanto nos solos argilosos ficou em 2,2 vezes.

Retorno da calagem: análise apresentada mostra que o resultado econômico da prática varia conforme as características e a textura do solo.
Manejo precisa considerar diferentes fatores
Dentro do manejo nutricional, O professor detalhou estratégias para racionalizar o uso de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) de acordo com as condições de cada área. Para o nitrogênio, os resultados apresentados mostraram que a dose de maior produtividade nem sempre coincide com a de melhor resultado econômico. Em uma análise baseada em 72 experimentos com cana-soca, por exemplo, a dose para máxima produção foi de 87,14 kg de N/ha, enquanto a dose econômica ficou em 72,9 kg de N/ha, com produtividades muito próximas.

Fonte: apresentação Prof. Dr. Pedro Henrique de Cerqueira Luz, adaptada de Cantarella e Penatti e Cantarella et al. (2007).
No manejo do fósforo, a orientação apresentada foi partir da análise da fertilidade do solo, considerar a relação de troca entre ATR e fertilizante e avaliar o potencial de resposta da área. Para as soqueiras, a estratégia proposta utiliza fatores de adubação diferentes conforme o teor de fósforo no solo, reduzindo a quantidade aplicada à medida que aumenta a disponibilidade do nutriente.
Para o potássio, a recomendação também varia conforme a fertilidade e a produtividade esperada. O fator apresentado vai de 1,6 kg de K₂O por tonelada de cana em solos com teor muito baixo de potássio a 1,0 kg/t em áreas classificadas com teor alto; em solos com teor muito alto, o fator indicado é zero. Segundo a apresentação, essa estratégia busca racionalizar o consumo do fertilizante potássico de acordo com a disponibilidade do nutriente no solo.
Apesar dos resultados apresentados, destacou que é importante entender a realidade de cada um e com isso, tomar a melhor decisão de manejo que alie produtividades e retorno econômico.
Planejamento para produzir com eficiência
Para cana-planta e cana-soca, Prof. Luz destacou que o manejo nutricional deve acompanhar as diferentes fases do ciclo e considerar as condições de cada área. Nesse planejamento, além da resposta agronômica, entra a análise econômica das práticas adotadas. “Nós temos as práticas que visam ganhar altas produtividades ou ter um enfoque para buscar retorno econômico também”, resumiu o professor.
Ao final da apresentação, o pesquisador reuniu diferentes estratégias de nutrição em um comparativo de retorno sobre o investimento. No cenário apresentado para agosto de 2026, os resultados variaram de 0,90 a 7,5 vezes o valor investido, evidenciando diferenças no retorno entre as práticas avaliadas. Os micronutrientes apresentaram o maior índice, de 7,5 vezes, seguidos pelo enxofre, com 4,94, enquanto a adubação foliar registrou ROI de 2,50.
O comparativo reforça um dos conceitos abordados ao longo da palestra: alcançar a maior produtividade possível não significa, necessariamente, obter o melhor resultado econômico. A avaliação deve considerar quanto cada prática acrescenta à produção em relação ao investimento necessário, além das condições de solo, ambiente e potencial de resposta da lavoura.

Retorno do investimento: comparativo apresentado na palestra mostra diferenças no ROI entre as estratégias de adubação, com destaque para os micronutrientes, que alcançaram retorno de 7,5 vezes o valor investido no cenário de agosto de 2026.
Depoimentos produtores:
“Achei a palestra muito importante, principalmente pelas orientações sobre os tratos culturais na cana. No cenário atual, cada vez mais desafiador, esse tipo de informação agrega muito ao produtor. Consegui entender melhor alguns pontos.”
Angela Maria Sanches Castilho – Santa Ernestina/SP
“Em um ano como este, em que todo mundo está buscando alternativas, a palestra mostrou que existem caminhos. Consegui esclarecer várias dúvidas, principalmente em relação à adubação, ao que pode ser reduzido e ao que precisa ser mantido. Para mim, foi muito esclarecedora.”
Ricardo Magnani – Taquaritinga/SP



