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O Hidratado de Mestre Sala

Neste artigo seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos de janeiro e fevereiro. Pela UNICA, a moagem até 1º de fevereiro foi de 583,96 milhões de toneladas (1,66% menor que na comparação da safra anterior). O mix da safra está em 53,10% para açúcar e 46,90% para etanol. Já foram produzidos 35,85 milhões de toneladas de açúcar (1,63% a mais), e no etanol 25,33 bilhões de litros (+1,22%). A produção de hidratado subiu 1,85%, para 14,72 bilhões de litros e a de anidro subiu 0,36%, para 10,61 bilhões de litros. No ATR houve boa melhoria, chegando a 137,30 kg/ton, contra 134 kg/ton na safra anterior (2,64% melhor), por isto que estamos com mais produtos mesmo tendo menos cana. O rendimento de etanol e açúcar por tonelada de cana processada nesta safra está em 42,71 litros (2,03% acima) e 61,36kg (3,35% acima), respectivamente. 90% da cana moída na última quinzena foi para etanol.

Diversas estimativas convergem para uma safra 2018/19 ao redor de 580 milhões de toneladas, com mix bem mais para etanol (59%) puxado pelo crescimento do consumo de combustíveis o que deverá retirar de 5 a 7 milhões de toneladas de açúcar do mercado mundial. A safra de cana começa com bom preço do petróleo, estimando o Brent ao redor de US$ 78 por barril, devido à economia mundial crescendo mais e a OPEP estável em sua produção, ou seja, maior demanda com a mesma oferta.

As usinas devem faturar R$ 90 bilhões em 2017/18 segundo a UNICA, número 8% menor que em 2016/17. Investirão cerca de R$ 10 bilhões nesta próxima safra e o endividamento está em praticamente R$ 100 bilhões, com 366 usinas em operação, sendo 279 no Centro Sul.

Sobre as empresas vale destacar neste mês a São Martinho realizando fortes investimentos em técnicas de plantio e informatização, que devem trazer reflexos já em 2019/20, com mudas pré-brotadas, a meiosi e ampliação de plantio. Apresentou resultados muito bons no último trimestre do ano, com lucro líquido de R$ 168,483 milhões, três vezes maior que no ano anterior. Encerraram esta safra moendo 15% mais cana, num total de 22,206 milhões de toneladas e o ATR chegou a quase 140 kg/ton, 7,3% maior. A receita líquida em 2017/18 foi de quase 900 milhões, 21,7% maior que o ano anterior, impulsionada por melhores negócios em energia (preço médio 40% maior), levando o EBITDA a R$ 497,440 milhões, 45,6% superior. Ainda tem 35% da produção para ser vendida, o que deve melhorar ainda mais estes números.

Para as reflexões dos fatos e números do açúcar, saíram os números finais do açúcar em 2017: exportamos US$ 11,4 bilhões (9,3% a mais) advindos de 28,7 milhões de toneladas (0,8% a menos). Perdemos mercado na China, graças à taxa imposta sobre as exportações brasileiras e menores compras dos chineses. Em 2017 as exportações foram 60% menores, de quase 800 mil toneladas. As importações chinesas caíram ao menor volume desde 2010.
As nossas exportações em janeiro caíram bem, foram de 1,566 milhão de toneladas, sendo 17,75% menores que dezembro e 29,2% menores que janeiro de 2017. A produção de açúcar acumulada até o momento (01/02) está em 35,83 milhões de toneladas, sendo 1,63% maior que na safra anterior.

No mercado não tivemos boas notícias. Estamos há muitos meses com oscilação relativamente pequena de preços, ao redor de 13 e 15,5 centavos de dólar por libra peso, com média de 14,21 cents (Archer).

Estamos com muito açúcar no mercado. A Datagro acredita agora que na safra mundial 2017/18 (out/set) o superávit passe de 2,02 para 3,70 milhões de toneladas aumentando a relação estoque consumo no final da safra para 42,4%. A União Europeia também deve inundar o mundo de açúcar, produzindo 20,5 milhões de toneladas nesta safra 2017/18, contra 16,8 milhões na anterior, reduzindo suas importações em 1,8 milhões de toneladas e exportar 2,8 milhões de toneladas. Outra inundação no mercado vem da Tailândia, que deve produzir recordes de cana (107 milhões a 110 milhões de toneladas) e de açúcar na safra 2017/18, algo entre 11 a 12 milhões de toneladas, com clima muito bom.

A Índia deve também inundar o mercado com uma produção em 2017/18 quase 23% acima da produção anterior, pulando de 20 para quase 25 milhões de toneladas. Foi anunciado investimento entre a Olam e a MitrPhol para produção de açúcar na Indonésia, sempre com aquela ideia antiga de se buscar a autossuficiência. Incrível a paixão mundial por produzir açúcar.

Fora isto, visando impulsionar os preços internos, o governo da Índia pensa em retirar o imposto de exportação de 20% sobre o açúcar, após já ter dobrado os impostos de importação visando estancar a queda de preços de mais de 16% na atual safra, frente à uma cana 11% mais cara.

Pelos cálculos da Archer, o açúcar precisaria ir a 15,50 cents para que o mix esperado para a safra 2018/19 (58,6% para etanol) comece a mudar. O custo médio sem depreciação e custo financeiro das usinas do Centro-Sul estaria em 13 cents/libra peso posto Santos.

A grande expectativa em relação aos preços é o mix da safra no Brasil, neste momento nossa torcida é para o clima continuar contribuindo e começar o processamento com tudo no etanol, aproveitando os preços da gasolina, sem destruir os preços do etanol e retirando açúcar do mercado mundial. Vale ressaltar que a produção mundial de açúcar aumentou quase 25 milhões de toneladas nos últimos cinco a sete anos e não foi principalmente no Brasil. Quanto mais diminui a participação do Brasil no mercado mundial de açúcar, graças ao crescimento de outros países exportadores, menos interferência no mercado mundial tem as alterações de mix no país. Mas ainda assim é considerável, e resta torcer por esta.

Agora vamos aos fatos e números do etanol e da energia. Até 1 de fevereiro a produção de etanol foi de 25,33 bilhões de litros (14,72 bilhões em hidratado e 10,61 bilhões em anidro), 1,2% acima da safra 2016/17. Mesmo com o fortalecimento da demanda por hidratado, ainda tivemos preços menores no último trimestre de 2017, quando comparados a 2016, em 11,7% (R$ 1,648/l). Um dos motivos é que voltou o PIS/COFINS desde o início do ano, e à partir de julho foi para R$ 0,1309/litro. A média do primeiro trimestre deste ano até agora é de quase 1,85/l, mostrando recuperação. Estes maiores preços do etanol devem antecipar o início da safra, a depender do clima, principalmente pelos grupos mais endividados e necessitando capital de giro.

Segundo a Archer Consulting, devido ao crescimento econômico, o consumo de combustíveis no Brasil pode pular de 53,8 bilhões de litros na safra 2017/18 para 57 bilhões de litros em 2018/19, e como o etanol ocupa 40%, teríamos mais 1,3 bilhão de litros.

Interessante estudo feito pelo Prof. Adriano Pires mostra uma das razões pelas quais os preços na bomba não caem ou sobem de acordo com as alterações dos preços do petróleo e consequente alteração no preço da gasolina pela Petrobras. O preços variam de acordo com cinco componentes: preço de aquisição do produto, tributos, logística (fretes, armazenagem e manuseio), remuneração dos distribuidores e remuneração dos revendedores. Destes componentes, ele chama a atenção que dois são responsáveis por 85%, sendo o custo do petróleo (35%) e os tributos (50%), ficando 15% de margem para a Petrobrás, postos e distribuidoras e a gasolina representa 30% do preço do combustível, sem o etanol. Portanto, a variação percentual se dá apenas nos 30%.

Segundo a Plural (Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência, que substitui o antigo Sindicom) desde 18 junho de 2017, a gasolina aumentou 18%, impostos 79% e as margens de lucro e frete caíram 7%. O fato é que desde 2017 a gasolina já subiu 20%, sendo hoje considerada pela Air-Inc como a segunda mais cara entre 15 países produtores de petróleo, perdendo apenas para a Noruega. O preço no Brasil é o dobro dos EUA.

Usinas estão pensando e exercitando a atuação nos mercados futuros internacionais de petróleo e gasolina, na expectativa de proteger margens para o etanol caso estes preços caiam. Pode tanto se vender posições nos mercados futuros de petróleo ou gasolina bem como comprar opções de vendas. Porém, subidas de preços requerem depósito de margens, e temos que ver que a relação não é integral, como vista anteriormente, devido aos impostos.

Seguem firmes as exportações de etanol pelos EUA. Em 2017 foram 17% a mais, um total de quase 5,2 bilhões de litros, 8,7% do total produzido. Estas exportações trouxeram US$ 2,4 bilhões, 16% a mais. O maior comprador foi o Brasil, com 1,69 bilhão de litros, 60% a mais que o ano anterior. Compraram praticamente 300 milhões de litros de etanol de cana, requerido por ser considerado biocombustível avançado, sendo quase tudo do Brasil. Estima-se que o Brasil deve importar a mesma quantidade em 2018.

As usinas da Índia devem vender 1,4 bilhão de litros de etanol no ciclo 2017/18, contra 665 milhões no ciclo 2016/17. O Governo visa uma mistura de 10% de etanol na gasolina, mas conta com muitos problemas para conseguir.

Nas informações para ajudar nossas análises de longo prazo no etanol, destaco: estudo feito pela Strategy da PW&C estima o crescimento do consumo de combustíveis no Brasil entre 2016 e 2030 em 58%, atingindo 177 bilhões de litros, requerendo investimentos de R$ 75 a 80 bilhões em produção e cerca de R$ 15 bilhões em infraestrutura.
Como resultado da maior eficiência dos motores, estima-se que um carro com motor 1.0 gasta cerca de R$ 900 a menos por ano em combustível na comparação com cinco anos atrás. A eficiência energética é o principal motivador do programa Inovar Auto, do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), que será substituído pelo Rota 2030 e até 2022 esta eficiência terá que aumentar ainda 15%. No caso da gasolina, o rendimento na estrada dos motores 1.0 pulou de 14 para 16,6 km/l. O incentivo às montadoras baseia-se em redução do IPI quanto maiores fossem e forem os ganhos tecnológicos, que envolvem desde a eficiência da queima até o menor peso dos carros, passando por câmbio com seis marchas, mecanismos start/stop e outros avanços. Esta redução do consumo significa também redução de emissões.

Seguimos avançando com o etanol de milho. Segundo a Unica, desde 1 de abril de 2017 até 1 de fevereiro, foram produzidos 391,85 milhões de litros (322,07 milhões de litros de hidratado e 69,79 milhões de litros de anidro), produção 130% maior que no mesmo período do ano passado. Mas vale ressaltar que isto ainda representa menos de 2% do produzido de etanol pela cana. A União Nacional do Etanol de Milho (UNEM) prevê que a produção atinja de 3 a 4 bilhões de litros por ano nos próximos cinco anos. Ricardo Tomczyk, executivo da UNEM ressalta que uma vantagem do etanol de milho sobre a cana é que a capacidade de produção pode ser aumentada rapidamente.

Estimam-se mais 6 usinas a serem feitas neste ano, investimentos de mais de R$ 2 bilhões, que podem capturar 3 milhões de toneladas de milho (6% da safra do Centro Oeste) contra 1 milhão demandado hoje. Um destes projetos tive chance de visitar na CerradinhoBio, que investirá R$ 280 milhões para moer 550 mil toneladas e produzir 230 milhões de litros, possibilitando abastecer confinamentos da região com o DDG (cerca de 150 mil toneladas).

Em pesquisa sobre a região o jornalista Gustavo Porto verificou mais alguns investimentos sendo feitos ou desenhados, a saber: FS Bioenergia expandindo (duplicando) a capacidade com investimentos de R$ 350 milhões; Santa Clara Álcool de Cereais começando neste ano em Vera (MT), com o diferencial de processar milho, sorgo granífero e arroz quebrado; a Coprodia, que ao lado de sua indústria de cana em Campo Novo do Parecis (MT) está aportando R$ 400 milhões em fábrica de etanol de milho; a Alcooad, composta por 15 fazendeiros integrados da Cooperativa Agroindustrial Deciolândia (Cooad), que devem realizar investimento de R$ 450 milhões (fazer uma fábrica 200 milhões de litros com 500 mil toneladas de milho); a Inpasa em Sinop (MT) com investimentos de R$ 500 milhões. Vale dizer que o consumo na região atingiu 2,3 bilhões de litros em 2015. Agora, com frota maior e se o percentual de uso de etanol na frota flex aumentar, tem-se uma situação interessante de substituição da gasolina “importada” e uso de produtos feitos na região.

O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) pretende alterar e reduzir o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos atuais 25% para 7%, tanto em carros elétricos como para os híbridos. Precisamos pensar melhor nisto, pois temos o RenovaBio pela frente. Caso a proposta siga em frente, deve ser muito bem estudada, e só deveria valer para os carros híbridos que sejam flex fuel, visando acelerar o desenvolvimento destes motores pelas montadoras.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), é o Brasil quem deve ter o maior crescimento mundial na produção de Petróleo, excetuando-se os países OPEP, graças às recentes modificações de políticas governamentais de abertura na área. Devemos pular de 2,6 milhões para 5,2 milhões de barris até 2040, e isto valeria a 27% da extração adicional mundial.

Como reflexão final, em 2017 o mercado mundial de automóveis foi de 94,5 milhões, 2,2% acima de 2016, representando mais um recorde, mas o futuro do carro e do transporte de pessoas é algo que deve nos intrigar… Recentemente o ex-chefe de desenvolvimento de produtos da GM disse que em 20 anos não teremos mais carros individuais. Os estrategistas da cana devem pensar nisto.
Vamos torcer para o etanol começar a safra com toda a força. Para isto era bom que a diferença de preços ficasse um pouco mais nítida, algo como 65% do preço da gasolina nos postos para termos importantes reflexos no consumo e nos estoques.

Prof. Dr. Marcos Fava Neves
Professor Titular da FEA/USP